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MercadoRelatório COT: como ler as posições de comerciais e especuladores
Rafael AzevedoPersonagem editorial · Redação de Mercado
Resposta rápida
O relatório COT (Commitments of Traders) é publicado toda sexta-feira pela CFTC, a agência que regula os futuros nos Estados Unidos, e mostra quantos contratos cada grupo de participantes tinha comprados e vendidos na terça-feira anterior. A leitura principal é a posição líquida (comprados menos vendidos) de comerciais e especuladores e como ela muda de semana a semana; posições extremas indicam um mercado lotado de um lado, não o momento exato da virada.
No mercado de futuros americano, quem tem posição acima de um certo tamanho é obrigado a informá-la ao regulador. Toda semana, a CFTC soma essas informações por tipo de participante e publica o resultado de graça. É uma das poucas janelas públicas para ver, mesmo com atraso, de que lado estão os produtores, os bancos e os fundos especulativos em ouro, petróleo, moedas, índices e juros.
O relatório tem fama de complicado porque vem em tabelas cheias de colunas. Na prática, você precisa de poucas linhas para tirar o que interessa. Neste guia usamos o ouro (contrato futuro da COMEX) como exemplo e o gráfico real do metal em 2026 para mostrar que perguntas o COT ajuda a responder.
O que é o relatório COT
O COT mostra, para cada contrato futuro, o total de contratos em aberto (o open interest) e como eles se dividem entre os grupos de participantes, separando posições compradas e vendidas. Os dados se referem ao fechamento de terça-feira e saem na sexta às 15h30 de Nova York, o que corresponde a 16h30 em Brasília quando os Estados Unidos estão no horário de verão e a 17h30 no restante do ano. Em semanas com feriado americano, a divulgação pode atrasar.
Cada contrato tem sempre um comprador e um vendedor. Por isso, somando todos os grupos, o total comprado é igual ao total vendido e igual ao open interest. O que muda é quem está de cada lado.

Os grupos de participantes
Relatório legado
- Comerciais: quem usa o futuro para se proteger de um risco real do negócio, como mineradoras, refinarias e bancos que negociam o metal físico.
- Não comerciais: os grandes especuladores, como fundos e operadores profissionais.
- Não reportáveis: as posições pequenas, abaixo do limite de informação, que o mercado costuma associar aos pequenos operadores.
Relatório desagregado
Para commodities como o ouro, a versão desagregada separa os comerciais em produtores e comerciantes e em swap dealers, e chama os especuladores principais de managed money, os gestores de recursos. Para futuros financeiros (moedas, índices, juros), existe o relatório Traders in Financial Futures, com grupos como dealers, gestores institucionais e fundos alavancados. Cada versão sai em duas formas: só futuros, ou futuros e opções combinados.
Como calcular a posição líquida e o índice COT
A conta básica é posição líquida = contratos comprados − contratos vendidos de um grupo. Os números abaixo são redondos e inventados só para mostrar a conta; para o dado da semana, consulte o relatório no site da CFTC.
- Managed money com 180.000 contratos comprados e 40.000 vendidos: líquido de +140.000.
- Cada contrato de ouro da COMEX representa 100 onças troy. Com o ouro a US$ 4.140,70 (fechamento de 07/10/2026), cada contrato equivale a US$ 414.070 em metal.
- Se nas últimas 52 semanas o líquido desse grupo variou entre +50.000 e +200.000, o índice COT é (140.000 − 50.000) ÷ (200.000 − 50.000) × 100 = 60.
O índice COT coloca a posição atual numa escala de 0 a 100 dentro da própria história recente. Perto de 100, o grupo está tão comprado quanto esteve no período; perto de 0, tão pouco comprado (ou tão vendido) quanto esteve. Isso facilita comparar mercados de tamanhos diferentes.

Exemplo real: as perguntas que o COT ajuda a responder no ouro
O gráfico mostra o ouro em 2026 com a média móvel simples de 50 dias. O metal começou o ano a US$ 4.329,60, chegou à máxima de US$ 5.586,20 em 29/01 e terminou 07/10 a US$ 4.140,70. Três momentos mostram onde o COT entra na análise:
Janeiro: a máxima e o dia seguinte
Depois da máxima de 29/01, o ouro fechou 30/01 a US$ 4.745,10, queda de 10,8% sobre o fechamento anterior, de US$ 5.318,40. Diante de um movimento assim, a pergunta para o COT é se os especuladores estavam com posição líquida comprada perto do extremo do ano. Um mercado lotado de compradores tem mais gente para vender quando o preço vira, e isso ajuda a entender a força de uma queda, embora o relatório não diga o dia em que ela começa.
Março a agosto: preço abaixo da média de 50
O ouro fechou abaixo da média de 50 dias em 18/03 (US$ 4.896,20) e só voltou acima em 05/08 (US$ 4.305,20). No caminho, fez a mínima do período em 30/06, a US$ 3.955,40, cerca de 29,2% abaixo da máxima de janeiro. Numa queda longa, o COT ajuda a acompanhar se os especuladores estão reduzindo as compras semana a semana ou se já zeraram boa parte delas, o que deixa menos vendedores potenciais pela frente.
Agosto e setembro: a recuperação perde força
A alta de agosto levou o metal a US$ 4.755 em 25/08, mas em 23/09 o fechamento voltou para baixo da média de 50 (US$ 4.318,40 contra US$ 4.343,04 da média). Aqui a pergunta é se a alta foi acompanhada por aumento de compras dos gestores e do open interest, o que indica dinheiro novo entrando, ou só por recompra de vendidos, que costuma ter fôlego menor.
Como usar o relatório COT
Olhe a variação, não só o nível
Uma posição líquida grande e estável diz pouco. O que chama atenção é a mudança: especuladores aumentando compras em semanas seguidas confirmam uma alta; reduzindo enquanto o preço ainda sobe, mostram que o movimento está perdendo combustível.
Use os extremos como alerta
Índice COT perto de 0 ou de 100 indica um lado lotado. Em ouro, os comerciais costumam carregar posição líquida vendida, porque produtores e bancos protegem o metal que têm; por isso, compare cada grupo com a própria história, e não com zero.
Combine com o gráfico
O COT funciona como contexto para semanas e meses. O momento de entrada continua vindo do preço: um rompimento, a perda de uma média, um fundo mais alto.
Limitações
Os dados chegam três dias atrasados, num mercado que pode andar muito nesse intervalo. A classificação dos participantes não é perfeita, e um banco pode aparecer como comercial mesmo quando parte da posição é especulativa. Por fim, o COT cobre os futuros regulados nos Estados Unidos, não o mercado de balcão nem o metal físico negociado em outros centros.
Erros comuns ao ler o COT
- Tratar o relatório como sinal de entrada para o dia seguinte.
- Esquecer que os dados são de terça-feira e já podem estar desatualizados na sexta.
- Comparar o líquido de um mercado com o de outro em contratos, sem normalizar pelo índice COT ou pelo open interest.
- Ler os comerciais vendidos em ouro como aposta na queda, quando boa parte é proteção de estoque.
- Misturar a versão só de futuros com a de futuros e opções na mesma série histórica.
Para criar o hábito, escolha um mercado que você opera, anote toda sexta a posição líquida dos especuladores e o fechamento da semana, e acompanhe por alguns meses na conta demo. Com o seu próprio registro, fica mais fácil perceber quando um lado está lotado e como o preço costuma reagir.
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