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O que é afrouxamento quantitativo (quantitative easing) e como afeta o mercado

Rafael AzevedoPersonagem editorial · Redação de Mercado

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Afrouxamento quantitativo (QE) é quando o banco central compra títulos em grande volume com dinheiro novo para derrubar os juros longos e estimular a economia. Juros longos menores empurram investidores para ações e outros ativos de risco e costumam enfraquecer a moeda. O caminho inverso, o aperto quantitativo, tende a fazer o contrário, como mostrou o juro americano de 10 anos, que saiu de 1,34% em dezembro de 2021 para 3,48% em junho de 2022.

Quando um banco central já reduziu os juros quase a zero e ainda quer estimular a economia, ele precisa de outra ferramenta. A mais conhecida é o afrouxamento quantitativo, ou QE, sigla do inglês quantitative easing. Parece assunto distante de quem opera gráficos, mas decisões de QE mexem com juros, câmbio, ações e ouro no mundo inteiro.

Para mostrar o efeito com números reais, usamos o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano (^TNX, dados do Yahoo Finance) entre outubro de 2021 e julho de 2022, justamente o período em que o Federal Reserve encerrou o QE da pandemia e começou a fazer o caminho inverso.

O que é o afrouxamento quantitativo

É uma política em que o banco central compra grandes volumes de títulos públicos e, em alguns casos, outros ativos, como títulos lastreados em hipotecas. Ele paga essas compras com reservas novas, criadas eletronicamente, e assim aumenta a quantidade de dinheiro no sistema financeiro.

O corte de juros mexe na taxa de curtíssimo prazo. O QE age sobre os juros longos: ao comprar títulos de 5, 10 ou 30 anos, o banco central eleva o preço desses papéis e derruba o rendimento deles. Com os títulos pagando pouco, investidores buscam retorno em ações, crédito privado, imóveis e mercados emergentes.

O Fed usou o QE em várias rodadas depois da crise de 2008 e, de novo, em escala muito maior a partir de março de 2020. O processo inverso, em que o banco central deixa os títulos vencerem sem repor ou os vende, é chamado de aperto quantitativo, ou QT.

Como o QE derruba o juro de um título

Preço e rendimento de um título andam em sentidos opostos. Um exemplo hipotético, só para mostrar a conta:

  • Um título paga US$ 40 por ano e custa US$ 1.000. Rendimento = 40 ÷ 1.000 = 4,00%.
  • O banco central passa a comprar esse título em grande volume, e o preço sobe para US$ 1.050.
  • O pagamento continua US$ 40. Rendimento novo = 40 ÷ 1.050 = 3,81%.

O comprador grande e constante empurra o preço para cima e o rendimento para baixo. Quando ele sai de cena, acontece o contrário.

Exemplo real: o fim do QE e o juro de 10 anos

Gráfico: ^TNX, diário, de 08/10/2021 a 29/07/2022. Dados: Yahoo Finance. Elaboração própria.
Gráfico: ^TNX, diário, de 08/10/2021 a 29/07/2022. Dados: Yahoo Finance. Elaboração própria.

O gráfico mostra o rendimento diário do título de 10 anos, em porcentagem ao ano. Três datas do calendário do Fed ajudam a ler o que aconteceu:

Novembro de 2021: o anúncio da redução das compras

Em 03/11/2021 o Fed anunciou que começaria a reduzir o ritmo das compras de títulos. Nesse dia o rendimento de 10 anos fechou em 1,58%. O mercado ainda não reagiu de imediato: a mínima da janela veio em 03/12/2021, a 1,34%.

Março de 2022: fim das compras e primeira alta de juros

As compras líquidas terminaram no início de março. Em 09/03/2022 o rendimento estava em 1,95% e, em 16/03, dia da primeira alta de juros do ciclo, fechou em 2,19%. Em pouco mais de três meses, desde a mínima de dezembro, o juro longo tinha subido 0,85 ponto percentual.

Junho de 2022: começa o aperto quantitativo

Em 01/06/2022 o Fed começou a reduzir o próprio balanço, o QT. O rendimento estava em 2,93% e chegou a 3,48% em 14/06, a máxima da janela, mais que o dobro da mínima de dezembro. No mesmo período, o S&P 500 caiu 23,55% entre o recorde de 03/01/2022 (4.796,56 pontos) e o fechamento de 16/06/2022 (3.666,77). O Nasdaq caiu 33,7% do pico de 19/11/2021 até o mesmo 16/06. Juros longos em alta reduzem o valor presente de lucros futuros, e as ações de crescimento sentiram mais.

Nem tudo isso foi efeito só do fim do QE: a inflação alta e as altas de juros pesaram junto. O caso mostra como as duas coisas costumam andar coladas.

Como o trader usa essa informação

Juros longos

Anúncio de QE tende a derrubar os rendimentos longos; fim de QE ou início de QT tende a pressioná-los para cima. Acompanhar o ^TNX ajuda a entender o que o mercado está precificando.

Câmbio

Mais moeda em circulação e juros menores costumam enfraquecer a moeda do país que faz QE em relação às outras. O efeito aparece em pares como EUR/USD e USD/JPY, especialmente quando dois bancos centrais caminham em direções opostas.

Ações e ativos de risco

Com títulos rendendo pouco, o dinheiro migra para ações e outros ativos de risco. Por isso QE costuma ser associado a valorização de bolsas, e o fim dele, a correções, como em 2022.

Calendário

As decisões saem em datas conhecidas: as reuniões do Fed, do BCE, do Banco do Japão e do Banco da Inglaterra. Nesses dias a volatilidade costuma aumentar, e vale reduzir o tamanho das posições ou esperar a reação inicial passar.

Limitações

O mercado antecipa: muitas vezes o preço se move nas semanas anteriores ao anúncio, e a reação no dia é pequena ou até contrária. O QE também nunca acontece sozinho, junto vêm inflação, crescimento e política fiscal. Atribuir um movimento inteiro a ele é simplificar demais.

Erros comuns sobre o afrouxamento quantitativo

  • Achar que QE é imprimir notas físicas: o dinheiro novo são reservas bancárias eletrônicas.
  • Supor que todo anúncio de QE faz a bolsa subir no mesmo dia.
  • Ignorar que o mercado se antecipa às decisões e já pode ter precificado o anúncio.
  • Confundir QE com corte de juros: um age nos juros longos, o outro na taxa básica.
  • Operar no minuto da decisão do banco central sem limitar o tamanho da posição.
  • Esquecer que os exemplos acima descrevem o que aconteceu, não o que vai acontecer.

Para praticar, marque as próximas reuniões do Fed e do BCE no calendário e acompanhe, na conta demo, como o juro de 10 anos, o EUR/USD e o S&P 500 se comportam no dia e na semana seguinte. Anote o que foi anunciado e o que o preço fez: com o tempo, você aprende a separar o que já estava no preço do que foi surpresa.

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Rafael AzevedoPersonagem editorial · Redação de Mercado

Personagem editorial da redação Duotide. Os textos são escritos pela equipe com apoio de inteligência artificial; cotações e gráficos vêm de dados reais de mercado. Acompanha o noticiário que mexe com preços: juros, bolsas, empresas e commodities, explicado sem jargão.

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