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Psicologia

É verdade que 90% dos traders perdem dinheiro? O que os dados dizem

Camila NascimentoPersonagem editorial · Redação de Risco e Comportamento

Resposta rápida

O número de 90% não vem de um estudo único, mas os dados apontam na mesma direção: no Brasil, 97% das pessoas que insistiram no day trade de mini-índice por mais de 300 pregões perderam dinheiro, e na Europa entre 74% e 89% das contas de varejo em CFDs perdem. As principais causas são risco grande demais por operação, alavancagem e custos.

Quase todo mundo que pesquisa sobre trading esbarra na frase: 90% dos traders perdem dinheiro. Ela aparece em vídeos, cursos e conversas, quase sempre sem fonte. O número exato varia conforme o estudo, mas a conclusão de fundo se repete: entre pessoas físicas que operam no curto prazo, perder é o resultado mais comum.

Neste artigo vemos de onde vêm os números, o que eles medem de verdade e, com um exemplo calculado sobre as cotações reais do bitcoin, por que o tamanho da posição explica boa parte das contas zeradas.

De onde vem o número de 90%

Não existe um estudo único que meça todos os traders do mundo. O número circula porque vários levantamentos, feitos em mercados e épocas diferentes, chegam a percentuais parecidos, sempre em grupos específicos: pessoas físicas, operações de curto prazo e, muitas vezes, produtos alavancados.

Brasil: day trade no mini-índice

O estudo mais citado no país é de pesquisadores da FGV e da USP (Chague, De-Losso e Giovannetti, 2019), que analisaram todas as pessoas físicas que fizeram day trade em contratos de mini-índice na B3 entre 2013 e 2015. Entre as que persistiram por mais de 300 pregões, 97% tiveram prejuízo. Só 1,1% ganhou mais do que o equivalente a um salário mínimo.

Europa: CFDs

Em 2018, a ESMA, autoridade europeia de valores mobiliários, informou que entre 74% e 89% das contas de investidores de varejo em CFDs (contratos alavancados sobre preços de ativos) costumam perder dinheiro. Desde então, as corretoras reguladas na União Europeia são obrigadas a mostrar, nos anúncios, o percentual de contas de varejo que perdem dinheiro com elas.

Taiwan: day traders

Estudos de Barber, Lee, Liu e Odean com dados completos da bolsa de Taiwan concluíram que menos de 1% dos day traders consegue lucrar de forma consistente depois dos custos.

Ou seja: o número de 90% não é exato, mas também não é exagero. Em alguns grupos, a realidade é pior.

Por que a maioria perde

  • Risco grande demais por operação: poucas perdas seguidas já comprometem a conta.
  • Alavancagem: amplia o ganho e a perda; um movimento normal do preço pode zerar a conta.
  • Custos: corretagem, spread e impostos pesam mais quanto mais se opera.
  • Falta de plano testado: entrar no mercado sem ter testado a estratégia antes.
  • Decisões emocionais: aumentar o risco para recuperar perdas, mover o stop, sair cedo dos ganhos.

Exemplo real: o tamanho da posição no bitcoin

Gráfico: BTC/USDT, diário, de 01/04/2026 a 07/10/2026. Dados: Binance. Elaboração própria.
Gráfico: BTC/USDT, diário, de 01/04/2026 a 07/10/2026. Dados: Binance. Elaboração própria.

O gráfico mostra o bitcoin (BTC/USDT na Binance) de 01/04 a 07/10/2026, com o ATR de 14 dias, que mede quanto o preço anda em média por dia. Em 07/10 o BTC fechou a US$ 83.321,81, com ATR de US$ 2.187,23. Vamos comparar dois traders com a mesma conta de US$ 2.000 e o mesmo stop, a 1,5 × ATR, ou US$ 3.280,85 do preço de entrada.

Trader A: arrisca 1% por operação

  • Risco: 1% de US$ 2.000 = US$ 20.
  • Posição: 20 ÷ 3.280,85 = 0,0061 BTC, cerca de US$ 508 de exposição.
  • Depois de cinco perdas seguidas: 2.000 × 0,99 elevado a 5 = US$ 1.901,98. A conta caiu 4,9%.

Trader B: arrisca 20% por operação

  • Risco: 20% de US$ 2.000 = US$ 400.
  • Posição: 400 ÷ 3.280,85 = 0,1219 BTC, cerca de US$ 10.159 de exposição, mais de cinco vezes a conta. Só é possível com alavancagem.
  • Depois de cinco perdas seguidas: 2.000 × 0,8 elevado a 5 = US$ 655,36. A conta caiu 67%.

O que o bitcoin fez de fato

Da máxima de US$ 82.850 em 06/05/2026 até a mínima de US$ 57.800,19 em 01/07, o BTC caiu 30,2%. Com exposição de cinco vezes a conta, uma queda de 20% já seria suficiente para perder 100% do capital. O trader B não precisaria errar a análise cinco vezes; bastaria estar comprado numa das quedas normais desse ativo. A volatilidade também mudou no caminho: o ATR foi de US$ 2.685,82 em 02/04 para US$ 1.226,13 em 16/08, e quem não ajusta a posição a isso arrisca mais do que imagina.

Esses números descrevem o que aconteceu com o bitcoin nesse período, não o que vai acontecer.

Como usar essa estatística

Como alerta, não como sentença

Os estudos medem o comportamento médio de grupos. Eles mostram quais erros são mais comuns: risco mal dimensionado, alavancagem, excesso de operações. Evitar esses erros não garante lucro, mas tira você do grupo que perde por motivos evitáveis.

Comece pequeno e registre

Arrisque uma fração pequena do capital por operação, de preferência entre 0,5% e 2%, e registre todas as operações. Sem registro, não dá para saber se você está melhorando.

Limitações

Cada estudo cobre um mercado, um produto e uma época. O estudo brasileiro trata de day trade em mini-índice; o europeu, de CFDs. Os percentuais não se aplicam automaticamente a quem investe no longo prazo, por exemplo. E nenhum gerenciamento de risco elimina a possibilidade de perda.

Erros comuns de quem quer ficar nos 10%

  • Achar que a estatística vale só para os outros.
  • Arriscar uma parte grande da conta por operação para crescer rápido.
  • Usar alavancagem sem calcular a exposição total em relação ao capital.
  • Aumentar o risco depois de perdas para recuperar.
  • Operar muito e ignorar o peso dos custos.
  • Começar com dinheiro real sem ter testado a estratégia na demo.

Antes de arriscar dinheiro real, faça o exercício acima na conta demo: defina um risco fixo por operação, calcule o tamanho da posição com o ATR do ativo e registre cada operação por algumas semanas. Se a conta demo não sobreviver às regras, a conta real também não vai sobreviver.

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Camila NascimentoPersonagem editorial · Redação de Risco e Comportamento

Personagem editorial da redação Duotide. Os textos são escritos pela equipe com apoio de inteligência artificial; cotações e gráficos vêm de dados reais de mercado. Escreve sobre gestão de risco, tamanho de posição e a psicologia por trás das decisões de quem opera.

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